Crônicas

Preta foi para o céu

Preta Gil foi para o céu. O Brasil ficou órfão de sua alegria escandalosa. Preta perdeu sua última batalha contra o câncer.

Perdemos a cantora, a empresária, a apresentadora, o exemplo de mãe, a mulher inspiradora que ela foi.

Preta foi embora no último domingo, dia 20, nos Estados Unidos.

Preta descobriu cedo sua força porque, na escola, apesar de ser filha de pai famoso, soube que isso não a blindava do racismo do colégio onde estudava: a mãe de uma colega se recusava a dar carona para “gente de cor” na Kombi dela. Porém, se não era impedida de passar por isso, viu a lição que a mãe dela, Sandra Gadelha — a Drão — deu na mulher desaforada.

Preta Gil não se encostou no pai cantor. Foi produtora, empresária, apresentadora, cantora. Casou, descasou, casou de novo, teve filhos e passou perrengues como qualquer pessoa comum.

Quando li “Os primeiros 50”, livro que ela lançou em 2024, pela editora Globo Livros, pensei em como seria bom se ela tivesse se lançado também na ficção. Ou, pelo menos, uma crônica semanal no jornal, se muito. Como escrevia gostoso.

Perdemos uma mulher que ensinou pra gente o que é a força da mulher, o empoderamento e o gostar de viver.

Ela namorou homens, mulheres, famosos e anônimos, e mostrou que o amor é sagrado — que cada um de nós pode amar quem quiser, do jeito que quiser.

Sei que um dia todos vamos deixar este mundo, sei que todo mundo terá sua hora, mas dói saber que ela era tão nova. Dói saber que seu rosto era tão vigoroso, tão bonito.

Preta Gil foi abandonada pelo marido durante a luta contra o câncer, mas colecionou amigos, fãs e uma família amorosa.

Perdemos uma mulher com riso fácil e um senso de humor delicioso.

Ela desnudou seu corpo e sua alma no disco “Prêt-à-Porter” (2003). Chocou alguns e foi aplaudida por muitos.

Vá em paz. Você será sempre uma inspiração para novas gerações.

*Excepcionalmente nesta quarta-feira.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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